A app StayAway Covid não é eficaz, andar com máscara na rua tem um efeito mais psicológico do que prático e o que devíamos saber mesmo é onde andamos com as mãos. Quem o diz é a recém-eleita presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia, Elisabete Ramos.

Elisabete Ramos é a primeira mulher a liderar a Associação Portuguesa de Epidemiologia. A nova responsável desta instituição entra para o cargo num ano que faz História e com ideias firmes sobre o vírus com que estamos a aprender a conviver.

Considera que houve lições da primeira vaga que não aprendemos?
É uma pergunta difícil. Claro que há sempre o que corrigir e, culturalmente, há o hábito de não planear atempadamente – até porque normalmente nos corre bem. [Na primeira vaga] não estávamos preparados e correu bem. Esta pandemia está a ser um grande desafio porque há muito que nós pensávamos numa lógica de doenças crónicas, que, no geral, pedem medidas mais universais e permitem respostas mais demoradas no tempo. Já há muitos anos que tínhamos arrumado as doenças infecciosas e elas trazem um grande desafio. Primeiro, precisam de respostas rápidas. Por outro lado, e apesar de sermos um país muito pequeno, o que se aplica num sítio pode não se aplicar no outro.

Em relação aos lares, para esta segunda vaga, parece-lhe que foram aplicadas as medidas necessárias?
Depende muito de cada lar. Tivemos lares inseridos em comunidades com muitos casos e em que não houve nada, e situações muito dramáticas noutros lares, que depois até se tornaram fonte [de contágio] para a comunidade. Esses vão precisar de mais atenção por parte das autoridades locais.

Portugal foi visto como “bom aluno” pela Europa no ataque à primeira vaga. Sente que agora, enquanto população, estamos a relaxar medidas individuais?
Talvez. Acho que pode ter acontecido, a certo período, termos aprendido com a própria experiência. É quase como quando se tira a carta de condução. No início, temos todo o cuidado com os limites de velocidade e andamos todos direitinhos com uma série de regras. Depois começamos a infringir um bocadinho e não nos acontece nada, nem temos acidentes nem temos multa. Na fase posterior ao confinamento, tínhamos muito poucos casos, por isso pensámos que se calhar não era assim tão grave fazer um jantar com 20 pessoas, se até estivémos num e ninguém foi infetado. Eu acho que o aspeto fundamental é que, impondo medidas, não vamos lá. Tem de ser na base do capacitar.

Informar em vez de obrigar?
Sim. Quando entramos na lógica do obrigar, começamos até a ter dificuldade para argumentar. Porquê cinco e não seis? Porquê cinco e depois dez? Cinco dentro de algumas salas é uma barbaridade, dez numa sala construída para 100 já não parece mau. Regras implicam uma definição, porque alguém tem de dizer se está a ser cumprida ou não está. Se informarmos e explicarmos o porquê daquela medida – até porque há muita informação de menor qualidade a circular – as pessoas adequam o comportamento em função do contexto em que estão, sem se sentirem tão limitadas. A imagem ideal para isto é uma escola com regras rígidas dentro dos portões, que são cumpridas, enquanto imediatamente à saída deixam de ser cumpridas.

Então o que pensa da medida da obrigatoriedade das máscaras na rua, sabendo nós que em locais ao ar livre a transmissão é menos provável?
Eu não concordo com a medida na lógica de ser aplicada a 100%. Estar na rua de máscara não é necessário. Do que a evidência nos diz, claramente não é aí que está a solução para o problema. Pode, no entanto, ter efeitos indiretos. Eu ver alguém com a máscara, de alguma forma, recorda-me de que não estamos em tempos normais.

O efeito pode ser mais psicológico?
Reconheço que possa trazer esse efeito indireto, embora não ache que seja a grande mais valia.

Como é que vê a obrigatoriedade do uso da aplicação StayAway Covid, para determinados grupos da população?
Essa medida claramente não foi uma medida bem pensada e surgiu, provavelmente, para tentar encontrar soluções que não aparecem. A aplicação, per si, não ia ajudar a encontrar atempadamente os casos ou a limitar os contactos. E depois há todas as questões relacionadas com a obrigatoriedade e consequente fiscalização. A medida não faz sentido, quer seja para grupos específicos quer seja para a população em geral.

A Suécia tomou desde o início da pandemia medidas um pouco diferentes da maioria dos países europeus. Teve muito mais casos do que nós na primeira vaga, mas agora está a ter menos.
Não temos realidades paralelas para saber como teria sido. É verdade que dá vontade de fazer essa comparação, mas não é muito justa, porque nós somos culturalmente muito diferentes. Por exemplo, a Suécia já tem um distanciamento físico muito maior no dia a dia. É a mesma lógica para o uso da máscara em países asiáticos e em Portugal. Estamos a falar de países com uma relação com a máscara muito diferente.

Pela boa ou pela má utilização?
Pela perceção que temos da máscara. Nos países asiáticos a máscara serve para proteger o outro. E como é para proteger o outro, ele não se sente ofendido por eu a estar a usar. A nossa perceção não é tanto essa, o que acaba por ser uma das razões pelas quais, em contexto familiar, nós não a usamos tanto. Se eu estou com alguém querido e próximo e estou a usar máscara, é como se dissesse à pessoa que me estou a proteger dela, e não o contrário. Esta perceção faz uma diferença brutal.

Põe em equação um segundo confinamento?
Não temos condições económicas para isso. Por outro lado, é adiar. Claro que o primeiro confinamento foi essencial, porque permitiu um tempo de preparação, mas não resolveu o problema. Num estado de pré-rotura dos cuidados de saúde, até posso imaginar que alguém tome essa decisão. Desejavelmente, não chegamos lá. Até porque, quando os profissionais de saúde são chamados ao campo, estamos a perder o jogo. Não deveriam ser precisos muitos recursos da saúde quando menos de 20% dos doentes precisam deles.

Além de presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia, Elisabete Ramos é professora da Faculdade de Medicina do Porto e investigadora do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto.
Além de presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia, Elisabete Ramos é professora da Faculdade de Medicina do Porto e investigadora do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto. RUI DUARTE SILVA

Vive no Porto, e a pandemia começou na região norte. Depois, o vírus moveu-se mais para o centro, para o outro grande núcleo populacional, Lisboa e Vale do Tejo. Agora regressou ao Norte. Temos alguma explicação para esta mobilidade do vírus?
Não, nem podemos olhar para o país como um todo. Vai ocorrendo em áreas geográficas em momentos diferentes e a velocidades diferentes. O Norte é uma zona de elevada densidade populacional e de muitas pequenas empresas, logo tem todas as condições para que, sempre que nós perdermos um pouco a mão, seja um local onde mais rapidamente vai aumentar a proporção de infetados.

Mais do que Lisboa e Vale do Tejo?
Os números referentes a novos infetados dependem também da capacidade de diagnóstico para os procurar.

Então o Norte faz mais testes?
Em número absoluto, não, mas isso é altamente oscilante. A melhor forma de ver é olhando para aqueles que precisam de cuidados mais diferenciados – os internados em enfermaria e em cuidados intensivos. Esta visão é mais isenta de outras variabilidades. Ou seja, o Norte até pode ter o dobro dos novos casos mas se tiver o mesmo número de internados, estamos a evoluir de formas semelhantes.

Do que se sabe deste novo vírus – e a ciência produziu muito – com a vacina o vírus pode, com o tempo, ser eliminado? Ou será mais provável ser um daqueles vírus que fica latente na sociedade?
É mais provável que ele fique por cá e nós vamos convivendo com ele.

Amigavelmente?
Mais ou menos amigavelmente. Também não convivemos com o vírus da gripe assim tão amigavelmente. Este vírus novo tem características que o tornam difícil de erradicar, particularmente a transmissão assintomática.

Nunca houve tanto medo de um vírus e talvez tanta consciência de que transportamos seres microscópicos, sejam eles vírus, bactérias ou outros, nas mãos.
Neste caso em concreto, as mãos, mais do que as máscaras, são a chave para tudo isto. Eu tenho feito o exercício nestes meses de tentar ter consciência de onde é que toco. Nós tocamos em centenas de coisas ao longo do dia sem nos apercebermos.

Os holofotes estão postos nos hospitais. É lá que devem estar?
Essa pergunta é provocadora. (risos) É fundamental que estejam lá, porque há cuidados necessários e, desviando recursos para a covid-19, é preciso assegurar que o resto continua, porque já são muitos meses em que temos descurado a ação em relação a outras doenças. Essa questão também é muito cultural. Quando pensamos em saúde, pensamos na cura, no hospital, no internamento XPTO que vai salvar vidas. Mas se voltarmos à lógica dos números, só cerca de 15% dos doentes é que vão chegar ao hospital. A primeira função de todos nós é fazer com que o denominador seja o mais pequeno possível. E depois não nos podemos esquecer que a grande fatia [de doentes] fica noutros sítios, não no hospital. Isto significa que os cuidados de saúde primários e as unidades de saúde pública estão a fazer um esforço gigantesco para fazer o seguimento de toda esta gente, que é uma fatia muito maior do que a fatia que chega ao hospital. Não estou a dizer que se deva tirar o holofote dos outros, mas estes profissionais também precisam de um.

De uma decisão, que já disse publicamente não ter sido muito informada, decidiu licenciar-se em Ciências da Nutrição, e tem focado grande parte da carreira a estudar a obesidade. Nós sabemos que existe uma relação entre a obesidade e os casos graves de covid-19. Neste sentido, deveria haver medidas de prevenção específicas para pessoas obesas?
Não se justifica, de todo. Até porque é uma variável, mas não é a que mais faz a diferença.

Está a assumir o cargo de presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia numa altura muito específica e que ficará para a História. Já pensou na mensagem que gostaria de passar, quase para uma primeira impressão?
Não pensei, não. (risos) Mas acho que gostaria de sensibilizar para a interpretação dos números, porque eles não são abstratos. Têm de ser lidos na lógica do contexto de onde saíram. Isso é algo que um epidemiologia faz – e não é só em contexto de pandemia, é sempre.

É interessante ter ido por aí, porque a minha próxima pergunta vai nesse sentido. É a hora da saúde pública, vista até agora como “um dos parentes pobres” da saúde. Andámos a descurá-la?
Eu diria que sim. Há uma barreira quando pensamos em planear a médio e longo prazo. Quase sempre nos focamos na resposta imediata e isso faz com que a saúde pública e a epidemiologia sejam descuradas.

A Associação Portuguesa de Epidemiologia existe desde 1988 e só em 2020 é que uma mulher sobe à sua presidência. Falta liderança feminina também nas organizações da saúde?
Falta, mas ela virá. Durante muitos anos, a participação pública também não era tanto feminina. Conforme essa participação for crescendo, a presença nos órgãos de direção vai acompanhando. A qualidade do trabalho das mulheres é cada vez mais reconhecida.

Portanto, a Elisabete é, em si mesma, uma boa notícia para as mulheres?
Espero que sim. Mas, sobretudo, há aqui trabalho de muitos anos e por parte de muitas mulheres que nunca conseguiram chegar aos lugares de direção.

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