Costa insistiu que 68% dos contágios são em meio familiar. No entanto, apenas cerca de 10% dos casos de covid-19 ocorrem comprovadamente nas famílias.

Quando António Costa anunciou o estado de emergência, no dia 7 de novembro, disse que as medidas implementadas aos fins de semana serviam fundamentalmente para evitar almoços de família. O primeiro-ministro argumentou que 68% dos contágios são em meio familiar.

Esta quinta-feira, na reunião de especialistas do Infarmed soube-se que em 81,4% dos casos de covid-19 as autoridades não sabem onde a infeção aconteceu. Isto significa que, escreve o Observador, os sistemas de vigilância epidemiológica só conseguem saber a origem de 19% dos contágios ocorridos.

Os dados da Direção-Geral da Saúde (DGS), referentes ao período entre 9 e 11 de novembro, revelam que em vez de 68% mencionados por António Costa, os contágios que acontecem em ambiente familiar tinham já descido para 55%.

O Observador fez as contas e conclui que, afinal, só 10,23% dos casos totais ocorrem comprovadamente nas famílias.

“68% dos contágios ocorrem em meio familiar e em convívio entre familiares, 12% em meio laboral, 8% em lares, 3% nas escolas, 3% no convívio social, 1% nos serviços de saúde. O grosso da contaminação está nos momentos de convívio familiar, em que as pessoas se sentem seguras”, disse, na altura, o chefe do Executivo em conferência de imprensa.

Assim, a porção restante sem link epidemiológico conhecido seria de apenas 5%.

“Isso é o milagre da rosas”, disse o infectologista Francisco Antunes. “A DGS não tem pessoal suficiente para acompanhar tantos casos diários e tantas cadeias de transmissão. Nos dias em que há 6 mil casos, somos capazes de chegar à origem de todos? Não acredito nisso. Se fosse assim tão fácil, a epidemia em Portugal teria outras caraterísticas”.

Outros especialistas ouvidos pelo Observador antes da reunião desta quinta-feira do Infarmed sustentavam que Portugal tem uma vigilância epidemiológica que outros países não têm.

“Quando se diz que 10 casos são de uma disseminação familiar, é provável que nem todos o sejam”, argumenta o especialista em saúde pública Ricardo Mexia. “Há pelo menos o primeiro caso, aquele que o levou para dentro da família, que terá acontecido noutro sítio. Há uma parte importante de disseminação comunitária do vírus. Quando saímos de casa todos nós nos cruzamos com pessoas nos supermercados, no trabalho”.