Esta é a conclusão de uma nova investigação, realizada entre maio e junho deste ano, em Wuhan, na China, e que envolveu mais de 90% de toda a população da cidade. Em que é que ficamos? A confusão sobre os assintomáticos parece ter vindo para ficar

Afinal, os assintomáticos com Covid-19 podem não ser infecciosos. Esta é a conclusão de uma nova investigação, realizada entre maio e junho deste ano, em Wuhan, na China, e que envolveu mais de 90% de toda a população da cidade, quase dez milhões de pessoas (Wuhan tinha, em 2018, 11,8 milhões de habitantes).

Publicado na revista científica Nature, o estudo concluiu que, de todas as pessoas rastreadas, não se verificou qualquer evidência de transmissão dos portadores assintomáticos do vírus para contactos próximos, sendo que foram detetados apenas 300 casos de pessoas assintomáticas. “Todos os contactos próximos dos doentes positivos assintomáticos obtiveram resultados negativos, o que pode indicar que os casos positivos assintomáticos detetados neste estudo não eram, provavelmente, infecciosos”, lê-se na investigação.

“Estudos anteriores demonstraram que indivíduos assintomáticos infectados com o SARS-CoV-2 eram infecciosos, podendo, posteriormente, tornar-se sintomáticos”, lê-se. “Em comparação com os doentes sintomáticos, as pessoas infectadas assintomáticas apresentam, geralmente, baixa quantidade de carga viral, o que diminui o risco de transmissão do SARS-CoV-2”, concluem os investigadores.

Os cientistas também encontraram 107 casos de pessoas que, supostamente, já tinham recuperado do vírus e que voltaram a testar positivo, mas de forma assintomática, nos testes realizados pela equipa. Nesses casos, também não foram encontradas situações de contágio nos contactos mais próximos.

O estudo concluiu, ainda, que a virulência do SARS-CoV-2 pode enfraquecer com o tempo, e as pessoas recém-infetadas são mais propensas a ser assintomáticas e com uma carga viral mais baixa do que os doentes infetados há mais tempo. Os investigadores afirmam, apesar disto, que ainda é muito cedo para se tirarem conclusões definitivas relativamente à transmissibilidade do vírus pelos doentes assintomáticos, já que o estudo apresenta várias limitações, e que a utilização de máscara e distanciamento social devem continuar a ser mantidos.

Contudo, este estudo põe, uma vez mais, em causa as medidas de controlo da pandemia adotadas em praticamente todo o mundo – nomeadamente o uso generalizado de máscaras de proteção -, que se baseiam na ideia de que as pessoas que testam positivo para o coronavírus, mas não apresentam qualquer sintoma, também são capazes de transmitir a doença. A verdade é que, já em junho, a Organização Mundial da Saúde tinha referido que os assintomáticos praticamente não transmitiam a infeção. “Parece ser muito raro uma pessoa assintomática transmitir o vírus”, referiu, na altura, em conferência de imprensa, a responsável do departamento de doenças emergentes e zoonoses da OMS, Maria Van Kerkhove.

Um estudo sul-coreano publicado em agosto tinha revelado, contrariamente ao que este estudo indica, que pessoas assintomáticas podem ter tanta carga viral como os doentes com sintomas, o que podia significar que os assintomáticos seriam responsáveis por uma percentagem considerável de infeções. 

A corrente que vê perigo de contágio pelos assintomáticos argumenta que estes, além de terem carga viral, fazem a disseminação do vírus través de gotículas emitidas pela boca ou nariz. Ou seja, só porque, para estes doentes, a infeção não se traduz em sinais clínicos visíveis, não quer dizer que os assintomáticos não produzam partículas virais para o meio exterior através dessas mesmas gotículas e não possam contagiar outros (apesar de se saber, à partida, que, se uma pessoa não tiver sintomas, tem menos probabilidade de ter tosse e, por isso, menos hipóteses de contagiar alguém por gotículas.

https://visao.sapo.pt/visaosaude/2020-11-23-as-duvidas-continuam-afinal-os-assintomaticos-podem-nao-contagiar-afirma-novo-estudo-realizado-em-wuhan/